10/16/2007

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The Adventures of the Demolition Sisters


1- A desgraça de alguns é a felicidade de outros

Estava um tempo razoável. No céu havia nuvens, mas não chegavam para tapar o sol. Choveria em breve, mas não fazia frio. As pessoas de Turtuga estavam felizes, todas elas exibiam sorrisos ora leves ora de orelha a orelha. Todos pareciam satisfeitos, excepto Kate.
- Não acredito! Não acredito mesmo nisto! – Dizia Kate enquanto andava pelas ruas de Turtuga, mais para si que para qualquer outra pessoa. Estava bastantechateada e os seus olhos verdes pareciam em chamas. – Eu não consigo, não posso acreditar! – Repetia ela.
Jack seguia atrás dela tentando acompanhar o seu passo rápido.
- Tens de admitir que não foi um mau negócio!... Ficámos com rum para o próximo mês INTEIRO e AINDA cem galeões! Melhor negócio é impossível! – Gabava-se ele com uma garrafa na mão, feliz de vida.
- Não acredito nisto… – afirmou, de novo, Kate. – Jack!!! Pára com essa conversa!!! Rum para um mês inteiro!?... Cem galeões!?... Blá… blá… blá…!!! Daqui a duas semanas já tu bebeste o rum todo e cem galeões não dão para nada! Temos dinheiro para comer durante uma semana ou duas, mas… e depois? Nem sequer terás onde curar a bebedeira visto que trocaste o nosso barco por ninharias!!! – Kate estava mesmo muito zangada e o seu rosto adquirira agora um tom arroxeado – Diz-me Jack… QUE RAIO VAMOS NÓS FAZER SEM A PORCARIA DO BARCO??!! – Olhou para Jack, ofegante, como se esperasse uma resposta que teimava em não chegar.
- KK… queres um golinho? – Respondeu Jack apontando com os olhos paea a garrafa que tinha na mão. Estava impávido e sereno, como se o discurso dela não o tivesse afetado nem um pouco. Ouviu-se um trovão e, de repente, começou a chover.
- Não me faltava mais nada! … - Resmungou Kate, abatida – Olha o que fizeste, Jack! Como é que vamos sair desta? Não acredito! – Parecia não haver o mínimo rasgo de esperança nas palavras da rapariga.
- Está bem, está bem, já sei – disse então Jack fazendo uma cara de quem tinha tido uma ideia excelente. Não havia mais ninguém à sua volta, o que seria de esperar dada a tempestade que havia despertado. O que minutos antes era uma rua extremamente movimentada de Turtuga, era agora nada mais que uma espécie de ribeirinha pela qual escorria água rua abaixo. As pessoas que antes andavam às compras já tinham corrido todas para debaixo de toldos; os comerciantes de rua tinham enrolado rapidamente as tralhas e metido a trouxa às costas; até os pequenos meninos ladrões se tinham ido acolher debaixo de alguma coisa, tal era a chuvada. Apenas Kate e Jack se mantinham ainda no meio da rua, debaixo da chuva e de alguns olhares curiosos de quem estava à espera que o tempo melhorasse. Jack olhou em volta e avistou um espaço abrigado da chuva perto de uma tenda de comerciantes e, apontando disse para Kate:
- Senta-te ali e espera por mim, está bem? Kate não se mexeu. Então Jack pegou nela ao colo e levou-a assim até ao sítio que apontara. Poisou-a no chão e fê-la sentar-se. – Eu volto depressa. Não saias daqui, está bem?
Kate olhava embasbacada para Jack enquanto o via ir-se embora a passos largos, com a roupa colada ao corpo por causa da chuva e tropeçando naquele seu jeito particular. Aquela cena tê-la-ia feito rir se as circunstâncias fossem outras. Deixou-se então ficar ali sentada, impotente, se dinheiro, sem barco e agora sem Jack… nada poderia fazer a não ser esperar. Sabia que já ninguém olhava para ela; estava em Turtuga, onde todos os dias se viam piratas que haviam perdido os seus barcos. Sabia também que ninguém iria parar na rua para lhe perguntar se estava bem. No final de contas, por ali só passavam trapaceiros, ladrões, vigaristas, bêbedos e, como é óbvio, piratas como ela, gente que não se importava com os outros, para quem ela era simplesmente invisível. Só lhe restava esperar. As horas iam passando, uma após a outra; a chuva parou deixando, mesmo assim, um céu enevoado e uma ventania enorme. Kate deu por si a pensar que não era mau de todo ter perdido o seu barco ou estaria a ter problemas no mar por essa altura. Riu-se do seu pensamento e, depois a raiva por Jack voltou. Onde estaria aquele desgraçado? Por certo já estaria a podre de bêbedo, caído nalgum sítio, ou então andava a gastar o único dinheiro que lhes restava em insignificâncias. Tal hipótese enfureceu-a ainda mais e deu por si a rasgar em pedaços uma folha de palmeira que estava no chão. Já tinha o corpo dorido de há tanto tempo estar ali sentada e levantou-se, ficou tonta e teve de se agarrar a uma árvore. Olhou então à volta e deu-se conta de que já era noite. De facto, Turtuga já tinha adquirido alguma da sua barulheira nocturna, a sua tonalidade de cores vibrantes e cheiros estranhos e exóticos. Começou então a ficar aflita. Jack poderia estar agora longe dali, ter-se metido numa embrulhada e tê-la deixado ali à sua mercê, sozinha e sem nada; que faria ela agora? -Sou uma pirata -pensou - Não me preocupo com ninguém nem com nada, nem sequer devia estar preocupada! Acabo sempre por ser eu a resolver tudo sozinha, não seria a primeira vez... quem precisa de Jack? Sou nova, errante, faço o que quero, posso começar tudo do zero sozinha...pois posso... – olhou para o sitio onde já estava havia horas. Já não fazia sentido estar ali à espera de Jack se não tinha a certeza de que ele voltaria. O vento já tinha parado, sinal de que tudo estava a melhorar...
-Hei KK...! - Um alívio profundo atingiu Kate. Era a voz do pirata. Kate virou-se de frente para a pessoa que a tinha chamado. Era de facto Jack, mas vinha acompanhado.
-Eu disse-te que ia resolver a nossa situação, não disse? - Perguntou Jack sorrindo e mostrando-se contente consigo próprio.
-mm, como... mm, é que isto...eles vão ajudar-nos? - Os acompanhantes de Jack eram um rapaz e uma rapariga, pareciam um bocado atordoados, estavam mal vestidos e muito sujos mas não eram com certeza piratas como ela e Jack, não tinham correntes ou dentes de ouro e, impossível! Não tinham tatuagens nem só mesmo o 'P' que todos os piratas têm. Passavam bem por pedintes se Kate não soubesse que não os havia por ali. Em Turtuga ninguém dava nada a ninguém, toda a gente roubava tudo a toda a gente. Só poderiam ser...
-Escravos! Pensei bem, não? - Ria-se agora Jack. Kate continuava sem perceber nada. - Não pensaste que conseguíamos roubar um barco os dois sozinhos, pois não? E não olhes para mim como se eu tivesse feito porcaria, também os pedi emprestados por isso não nos custaram nada...
-Pediste emprestados? - Perguntava Kate ainda não muito convencida.
-Bem, foi por isso que demorei mais tempo, ainda andei um bocado até encontrar vendas de escravos e depois tive de esperar até que o vendedor não estivesse a prestar muita atenção, não que eu tivesse medo de o enfrentar 'mano-a-mano' mas, sabes como é, mais vale não chamar a atenção para nós...como ia a dizer, esperei e quando o vendedor não estava a olhar dei como que, uma pauladazita na cabeça a estes dois que me pareciam mais fáceis de 'manejar', arrastei-os até à praia e só depois de eles acordarem e de eu ir resolver um assunto é que viemos ter contigo.
-Está bem, até não foi mau pensado de todo – disse Kate com um sorriso nos lábios. Jack quando queria até puxava pela cabeça – Assunto? Não foste comprar nem roubar rum porque ainda não bebeste todo o que tens... Já sei, foste comprar comida Jack! Vem mesmo a calhar já tenho um buraco no estômago...
-Não propriamente...mas fui comprar uma coisa, sim - Jack tirou uma caixa com buracos de trás das costas, lá de dentro veio uma espécie de 'rugido pequenino' e Kate deu um passo atrás. - É para ti. - Jack deu a caixa a Kate, esta apreensiva pegou nela e abriu. Lá dentro estava um gato.





2-Trouble


-Um gato? - Kate olhava para o animal sem saber o que pensar.
-Comprei-o para ti. Lembrei-me que estavas aqui sozinha, eu estou sempre contigo mas em situações como esta não queria que estivesses sozinha então pensei em oferecer-te um animal que fosse parecido contigo. Pois nada melhor que um gato, independentes e orgulhosos mas não dispensam alguns mimos da pessoa certa.
Kate pegava agora no gato ao colo, era pequenino e traquina, preto e com riscas cinzentas. Queria dizer a Jack que tinha sido uma estupidez gastar dinheiro num gato quando estavam tanto a precisar de dinheiro e principalmente quando o podiam ter roubado, mas no final de contas estava sem palavras, tinha adorado o presente e tinha sido um gesto muito bonito da parte de Jack, eram coisas assim que a faziam gostar dele e aturar-lhe tanta coisa, por isso disse apenas: Obrigada.
Jack sorriu – de nada. Mas tens de lhe dar um nome, não é?
'Um nome, um nome...' pensou Kate. Olhou para o gato enquanto este já brincava com um dos colares que Kate tinha ao pescoço e riu-se. Já tinha o nome perfeito para ele. - Trouble. Traquina como é, está-se mesmo a ver que este só me vai dar problemas, ele por si só é um verdadeiro problema visto que não temos barco nem comida mas enfim. Trouble será.
Jack e Kate riram-se como se fossem um só por alguns segundos e depois Jack lembrou-se dos outros dois que estavam com eles, estavam mesmo atrás dele e Kate, sem falar, encostados à árvore ainda com cara de quem não percebia nada mas também não estavam com cara de quem estivesse a prestar atenção a alguma coisa.
-Hei vocês... – eles não pareceram ligar – vocês os dois aí – chamou Jack e eles olharam por fim - vocês têm nomes não?
Os dois olhavam agora fixamente para Jack, como se não tivessem percebido o que ele tinha acabado de dizer e estivessem à espera que ele repetisse a pergunta. Por fim o rapaz falou – os nossos números de escravos, senhor? Eu sou o 16 e ela é a 17, senhor.
Kate olhou para eles e instantaneamente disse – Qual senhor qual quê, quanto muito podem chamar-lhe capitão… mas visto agora não termos navio tratem-no só por Jack. E não, não é os vossos números de escravos mas sim os vossos nomes que queremos saber... vocês agora são parte da nossa tripulação, nossos cúmplices não escravos, é claro que sendo parte da tripulação, farão o que nós vos pedirmos e tudo o mais, mas andarão livremente até darem provas de que não merecem. Não é assim, Jack?
Jack concordou com meio sorriso. Era óbvio que ele não usaria exactamente as palavras de Kate como sendo dele, mas também não achou tão mau assim. O rapaz voltou a falar. Tinha antes as mãos nos bolsos mas tirou-as e começou a articular bastante enquanto falava. Era alto, estava magro mas não esquelético, tinha olhos verdes bonitos e cabelo preto desalinhado que teimava em cair-lhe para a cara enquanto ele o tentava meter para o lado abanando o pescoço de vez em quando. Notava-se que gostava de falar e que já não tinha oportunidade de o fazer como queria fazia tempo. - O meu nome é Winchester, Jack. Fomos raptados por uns contrabandistas em Londres, apesar disso ninguém anda à nossa procura porque nós fugimos da nossa família para estarmos juntos é que eu e a Megan queríamos casar. Fomos então trazidos para cá num barco cheio de gente como nós há cerca de uma semana e ficámos nesse mesmo barco até hoje à tarde quando tivemos a sorte de sermos mais uma vez raptados, desta feita pelo Jack. O nome dela é Megan – disse apontando para a rapariga - Winchester. Chegámos a casar-nos – disse entusiasticamente.
Jack parecia agora um pouco aborrecido, não queria saber de onde tinham vindo aqueles dois nem se eram casados ou não, queria só que eles lhes ajudassem a roubar um navio e que pudesse mandar neles. - Nós gostamos de manter as coisas simples, já existe um Jack e sou eu por isso tu ficas J.W - afirmou apontando para o rapaz - e tu, rapariga calada, ficas Meg porque nós não temos paciência para nomes grandes. Meg ou Egg... tu escolhes.
-Meg está bem, obrigada. - Disse a rapariga ruiva com sardas. Estava pálida e não tinha nada a ver com o rapaz, era muito calada, ou pelo menos não parecia querer falar.
Esta teve piada não teve? Meg ou Egg... – Jack ria-se do que tinha dito e Kate estava agora mais preocupada em dar atenção ao seu gato.
Encontravam-se pois ali, os quatro sem nada para dizer. Kate dava festinhas a Trouble enquanto este brincava com a sua própria cauda, Jack bebia da sua garrafa, J.W. parecia querer falar mas não sabia o que dizer e Meg continuava ainda encostada à arvore e olhava para o céu como se o estivesse a ver estrelado e bonito, o que não era possível visto nuvens cinzentas ainda cobrirem totalmente o céu. Passados uns dez minutos Kate pareceu lembrar-se da sua situação. Olhou para J.W e Meg, o que tinham vestido teria sido roupa em tempos mas não o era agora de certeza, tratavam-se de farrapos castanhos e brancos e nada mais do que isso. -Temos de arranjar-vos roupas novas, eu e Jack temos uma reputação a manter, não podem andar assim vestidos connosco. E agora também dava jeito ir comer qualquer coisa, vocês estão com cara de quem não come há dias e eu também não estou muito melhor. Vamos Jack?
-Glup, Vamzz ssimm – disse Jack com a boca cheia de rum.
-A única razão pela qual eu acredito ser impossível tu te embebedares é o facto de achares que já nasceste bêbado. - Kate desatou a rir-se e J.W acompanhou-a, feliz por poder fazer alguma coisa. Meg continuava impassível.






3- O vampiro misterioso


Mas nem todos estavam felizes. Enquanto Jack, Kate e os seus novos amigos celebravam o facto de (ainda) estarem vivos, havia alguém num local distante que preferiria estar morta. Caminhava devagar sobre a terra batida do cemitério da Pena, olhando para o chão. Lá em cima a Lua Cheia dava um ar da sua graça e as estrelas assemelhavam-se aos olhos de William. A rapariga deteve-se por um instante, fitou a lua e chorou silenciosamente e para si mesma.
-William... – era o grito desesperado que a rapariga tinha mantido guardado na garganta durante todos aqueles anos. E saíra finalmente, mas mais como um murmúrio de solidão que como um grito de raiva. - Porque me deixaste?
A rapariga olhou novamente o chão e prossegui, resmungando orações que nunca aprendera antes. Não se ouvia nada a não ser os seus sapatos calcando folhas secas no chão. De vez em quando distinguia-se ao longe o som da cidade frenética, a vários quilómetros de distância.
- Não te mexas!
- Aconteceu tudo demasiado rápido. Num segundo, a rapariga estava a caminhar pelo Cemitério da Pena, triste e sem alento. No segundo seguinte, sentia um par de braços a envolver-lhe o peito, duas mãos pesadas na sua boca, como que a amordaçá-la, e então o silêncio foi quebrado por aquela ordem gritada por aquela voz assustadora. Amedrontada, a rapariga obedeceu e deixou a criatura envolver-se no seu corpo agora frágil. Marie era uma miúda bastante robusta, não muito alta mas bastante forte. Tinha umas pernas particularmente musculadas, como uma judoca. E a sua força de braços parecia não lhe caber no seu pouco mais de metro e meio. Já havia dado cabo de alguns rapazes do seu bairro, ladrões e tarados que se metiam com ela pensando tratar-se de presa fácil. A um deles provocou tamanhos ferimentos que o rapaz, corpulento e alto, acabou por bater a bota uma semana depois da briga. Era inacreditável como alguém daquele tamanho, força e flexibilidade não conseguia dar conta do que quer que fosse que a estava a agarrar. E a verdade é que a criatura não era assim tão grande e assustadora. Era apenas um homem, pelo menos à primeira vista. Não era muito mais alto que Marie, e também não parecia muito mais pesado que ela. A única coisa nele que poderia causar medo, eram as suas enormes presas. Como num tigre ou num leão, os seus caninos proeminentes pareciam capazes de perfurar carne e causar hemorragias mortais. Mas não se tratava dum tigre ou leão. De facto, aquela coisa assemelhava-se mais a um humano que a um animal. Na verdade, aquela coisa tratava-se de um vampiro. Um vampiro esfomeado, por sinal. E estava prestes a atirar-se ao pescoço de Marie. Ela parecia não se importar minimamente com isso. Já estava morta por dentro. Até lhe fariam um favor se lhe chacinassem o corpo. A sua alma tresandava a decomposição, como se estivesse enterrada há milhares de anos. Como se fosse uma múmia errante à espera que a maldição fosse libertada para voltar ao seu descanso milenar. E nada fez quando os enormes dentes do vampiro lhe perfuraram o pescoço e, gota a gota, lhe extraíram o sangue, deixando uma pequena parcela. Queria torná-la numa vampira. Uma das dele. Uma besta sem sentimentos, capaz de matar por um copo daquele líquido vermelho que outrora lhe correra nas veias. E ela nada fez para o impedir. Deixou que ele lhe limpasse o sangue. Pouco a pouco, a forte dor no pescoço onde ele lhe cravara as presas ia diminuindo. “Estou a morrer...” pensou para si. “Finalmente...” Então sentiu que a criatura se afastava. Sentiu os seus braços quentes afastarem-se do seu corpo subitamente febril. Estava morta. Ou não. Deu-se conta que das gengivas lhe pendiam dois dentes que não eram humanos. Dois caninos proeminentes. Dois dentes de vampiro. Era uma deles. Não estava morta, mas também já não era um “ser vivo”. Era uma fera nocturna, sem escrúpulos e sem alma. Nunca mais teria de levar com a luz do sol nem com toda aquela gentalha que sorria ao passar por ela, como se ela fosse “só mais uma”. Agora era uma vampira de apetite voraz, capaz de coisas inacreditáveis com o seu pouco mais de metro e meio. Virou-se para o homem para agradecer, mas deteve-se quando o olhou nos olhos. Eram os olhos mais bonitos que já vira. Poder-se-ia dizer que eram verdes, mas não o eram realmente. Eram como que uma mistura de verde com cor de avelã… mas que belos olhos tinha aquela criatura! Em nada se assemelhavam aos olhos de uma ser maligno. Ao olhá-los, Marie sentiu que havia algo ou alguém aprisionado dentro deles. Algo ou alguém bom, puro, com sentimentos. Como uma alma… deu por si a desejar abraçá-lo, beijá-lo, humanizá-lo. Mas controlou-se. Agora era bravia, não era suposto sentir o que quer que fosse por quem quer que fosse. Tinha sido transformada num ser de uma curiosidade apurada e, pior ainda, uma tamanha insolência capaz de irritar o mais sereno dos Homens.
- Como foi isso, vampiro? – Perguntou, apontando com a cabeça para o pescoço dele e levantando o queixo em sinal de superioridade. Podia perfeitamente pô-lo a sangrar e até partir-lhe um braço ou uma perna com relativa facilidade.
- Gerard. Para ti sou o Gerard. Aquele vampiro era deveras sensual. Devia medir cerca de um metro e setenta e cinco de altura, era robusto mas não gordo. Os seus longos cabelos pretos pareciam feitos de seda e os seus lábios em forma de coração eram extremamente apetecíveis. A sua camisa com quatro botões por apertar, as calças justas às suas pernas perfeitamente esculpidas, o seu sorrisinho cínico… tudo nele parecia despertar os mais selvagens instintos de Marie. Mas aqueles olhos… aqueles lindos olhos faziam-na recuar perante a ameaça iminente de voltar a si. Esquivou-se deles a todo o custo. – Nem queiras saber como isto foi… – apontou para os buraquinhos na sua pescoceira. Não se tinha transformado em vampiro por dá cá aquela palha. – Isso é uma outra história… para um outro dia… – à medida que ia falando aproximava-se mais e mais da jovem, que nada fazia para o afastar. Queria consumi-lo, possui-lo, respirá-lo… os seus mais primitivos desejos ardiam-lhe pelo corpo. Era uma vampira, nada lhe era proibido. Gerard agarrou-lhe no queixo com as mãos em forma de concha, como se soubesse exactamente o poder que os seus maravilhosos olhos exerciam sobre ela, que continuava a evitar a todo o custo o contacto visual. Gerard encostou os lábios à orelha direita dela – não resistas…
Quanto mais ela se tentava libertar dele mais presa àqueles braços ficava. Então ele aplicou o golpe de misericórdia: um olhar. Um simples olhar e aquela miúda ficaria à mercê do grande Gerard. Poderia fazer com ela o que desejasse, era a sua marioneta.
Por fim, os seus lábios fundiram-se
“Acabou-se”, pensou Marie, “estou final e completamente sob o feitiço desta...” não conseguia sequer pensar. Gerard cheirava a rosas vermelhas. Marie sentiu-lhe as mãos pesadas nas suas ancas. As mãos dele estavam quentes. Nenhum vampiro tem as mãos quentes…

2 comments:

Martinha said...

Confesso, nao tive paciencia para ler tudo. :$ *

Catherine said...

See see it isn't private xD